A Farsa de O Ensaio Sobre A Lucidez

3 nov

Por Ricardo Azarite

Se José Saramago escreveu algo indevido na sua trajetória literária, eu digo que foi O Ensaio Sobre a Lucidez. Para quem não conhece, esse livro descreve um país em que a maioria absoluta dos eleitores votaram em branco ou nulo nas eleições federais. Nesse cenário, o país entrava em anarquia (não anarquismo!) e o sistema político que insatisfazia a população era cancelado. É a revolução mais bonita que eu já imaginei.

Tenho vários conhecidos que baseiam seus argumentos políticos nesse livro, é aí que está o motivo desse livro ser indevido. “Eu voto nulo porque os candidatos são todos igualmente ruins e corruptos, a Política brasileira é um nojo, me insatisfaz de um tanto…aliás, você já leu aquele livro do Saramago? Imagina se a maioria vota nulo! Caso isso ocorra, haveria algum coisa, isso teria algum significado e os políticos melhorariam!”.

Isso é mentira. O sistema democrático brasileiro é baseado em votos válidos – ou seja, excluídos brancos e nulos. Se 99,9% dos eleitores votarem branco e um único voto vai para o candidato mais corrupto de todos, esse será o vencedor nas urnas. É uma proteção da Democracia contra uma revolução que se dê sob suas próprias regras, é um sistema imunológico e um fator que motiva a cidadania.

Me pergunto então qual é a utilidade de um voto inválido – porque eu, cidadão, dotado de (pouco, mas algum) poder, jogaria fora um voto? Fazê-lo é concordar com qualquer decisão tomada – sabe aquele “quem cala conscente?”, é mais ou menos a mesma coisa.

Acho um discurso muito bonito quando alguém diz que vota nulo como forma de protesto. E é exatamente isso: um discurso bonito – porque, na realidade, um voto nulo é virar as costas para o problema político e se afastar de uma decisão. É se abster de responsabilidade por qualquer besteira que o político eleito fizer; é negar fazer o melhor da democracia.

Esse discurso do voto nulo é ainda mais comum no segundo turno, por motivos óbvios. No primeiro turno, dei meu voto à Marina Silva, por acreditar que suas propostas condiziam com um mundo mais próximo do que considero ideal; nesse último domingo, votei Dilma, mesmo tendo criticado a chapa da petista durante a campanha de primeiro turno. Isso não é hipocrisia da minha parte, é uma reavaliação da situação, com um outro ambiente, para uma nova tomada de decisão.

Nesse sábado, conversando com meus amigos sobre essa questão do voto nulo, um deles me apresentou um cenário muito interessante: em 1998, no segundo turno da eleição do governo paulista, tínhamos Mário Covas (o tucano-rei do estado) e Paulo Maluf. Seria um absurdo político se eu, eleitor “tão de esquerda quanto o PT e tão de direita como a Marina Silva”, votasse em qualquer um dos dois, já que ambos são nojentos a meu ver. Seria, porém, um absurdo cívico se eu, cidadão, deixasse meu voto para ninguém (lembrando que Maluf tinha maioria no primeiro turno) – eu certamente votaria em Covas, sem titubear um instante sequer. De todos os males, sempre há um melhor, mais “ameno” – façamos força para elegê-lo!

Imagino que muitos dos meus conhecidos que votaram nulo só o fizeram porque sabiam que a vitória seria de Dilma. É aí que peca ainda mais o cidadão: confirma que há um candidato “menos pior”, sabe que este ganhará, mas não vota nele porque querer, talvez, se eximir de culpa da eleição de um político longe do ideal.

Não critico aquele que vota nulo, pois lhe é um direito democrático fazê-lo. Acho, contudo, que essa é a pior de todas as formas de fazer protesto – mais do que isso, é pior de todas as formas de se fazer cidadão.

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4 Respostas to “A Farsa de O Ensaio Sobre A Lucidez”

  1. Marcelo Introíni (Kapi) 3 de novembro de 2010 às 14:10 #

    Discordo (apesar de ter votado NULO uma ou zero vezes na vida).

    O voto NULO nas condições em que se encontra representa, de fato, um voto jogado fora. Como você disse, não é um voto contado nas apurações dos votos “válidos”. Mas o “válido” é válido nos termos do nosso sistema eleitoral. Dentro dele. E só dele. A democracia é mais do que isso.

    A democracia é, também, descontentamento! E o descontentamento não precisa estar personificado em um candidato no processo eleitoral. Por que escolher o “menos pior”, se posso expressar meu descontentamento em outras oportunidades, fora do sistema e do período eleitoral? É a esperança de acreditar que as Eleições não
    trazem as únicas possibilidades para o futuro.

    Mudanças profundas constam na história. Revolução Francesa, Comuna de Paris, Independência do Haiti (caso particularmente especial), Independência dos países Latino-Americanos, Diretas-Já no Brasil…
    Todas elas, fora dos termos do Sistema Eleitoral. As Eleições brasileiras não representam grandes mudanças, senão a inércia política. Mudanças substanciais virão por outras vias. E quem vota nulo (com consciência) está buscando essas vias.

    Meu voto (em Dilma) poderia ter sido um voto NULO. Por um cálculo político, achei que ainda não há força suficiente para que o meu NULO fosse, de fato, considerado um voto válido. Válido para a sociedade e para o futuro dela. Para aquela que é a agente da mudança histórica. A partir do VERDE na urna, entretanto, torno-me, novamente, um NULO. Somo forças aos que fizeram um cálculo político mais arriscados que o meu e que, ao confirmarem o NULO na urna, só reafirmaram o quão ATIVA pode ser a mudança que surge fora das cabines eleitorais.

    • )borbas( 4 de novembro de 2010 às 1:06 #

      Assino embaixo em quase tudo que você disse, Kapi, só não concordo com uma coisa: seu primeiro parágrafo…hahaha

      Votar nulo é inválido sim, é democraticamente inútil – e mais, mesmo que seja uma eleição expressiva para esse tal de candidato “NULO”, sua vontade não será levada a sério, simplesmente por sua vontade ser inválida.

      Se o objetivo do cidadão é ir contra “tudo que está aí” e quer, de fato, “mudar essa putaria toda”, vá, mas não por meios democráticos – um protesto aqui, um panelaço ali, etc.

      Votar nulo é, em tom pragmático, irrelevante como forma de protesto – mais irrelevante ainda para o processo democrático.

  2. canhoteiro4 10 de novembro de 2010 às 0:43 #

    Preferível anular voto do que escolher como forma de protesto votar no Tiririca. Ainda assim…
    Se alguém conhece Saramago de fato e o pensamento político dele, deve saber que ele mesmo assume lidar com situações utópicas.
    A pessoa que vota nulo devia ler Noam Chomsky, anarquista, como Saramago, que preza pela revolução pelo voto efetivo, nunca nulo! Votando sempre no candidato mais próximo da sua ideologia, com seu pensamento, pode-se alcançar medidas em direção à verdadeira revolução. Nesse sentido, portanto, o voto nulo torna-se realmente a figura representante MAIOR da alienação política: não tem representatividade. Imagina-se que o voto nulo revolucione. Entretanto, quando ele ganhar verdadeira expressão e representatividade é sinal de que a revolução já aconteceu. Porque não adianta votar nulo e não propor nada de diferente. Porque não adianta votar nulo sem consciência coletiva. Não adianta anular o voto sem projeto algum. O voto de Saramago, conforme nos disse Ricardo Azarite, é utópico: só aconteceria no dia em que consciência individual e coletiva fossem separadas por uma linha muitíssimo tênue, na qual toda atitude individual teria como fim uma prática coletiva, para o bem coletivo.
    Acontece que o nosso voto nulo é vago, não há consciência coletiva e hoje ele mais parece uma prática golpista do que de protesto de fato.

    • Marcelo Introíni (Kapi) 17 de novembro de 2010 às 23:00 #

      Voto nulo é a banalização da política? Não acredito nisso. Ele existe por uma razão muito simples: nenhum dos postulantes ao cargo contempla aquilo que eu acredito. O importante vem agora: O voto nulo não é um ato político se praticado isoladamente! Sozinho, ele não é nada! O sujeito vota nulo e depois participa no Centro Acadêmico da Universidade. Vota nulo e discute greve na Universidade pública. Vota nulo, mas é filiado a algum partido. Aí sim! O voto NULO torna-se a ferramenta que mostra que não só a direção tomada pelo automóvel é o problema, mas que as engrenagens do automóvel são problemáticas. E aí abre-se a porta para Revolução, antônimo de Evolução! Daí em diante, não vai mais adiantar passar na borracharia. Tem que trocar o motor inteiro.

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